Metrópolis (Metropolis)
Metrópolis, Alemanha, 1927. Direção: Fritz Lang Elenco: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Heinrich George, Erwin Biswanger.
Sinopse: No futuro, a sociedade de Metrópolis está dividida em dois grupos: os trabalhadores, que vivem debaixo de terra e fazem as máquinas funcionar e a classe dominante que vive à superfície. Os trabalhadores são dirigidos por Maria que quer encontrar um mediador entre a classe dominante e os trabalhadores, pois ela acredita que entre o cérebro e os músculos é necessário um coração. Maria encontra Freder Fredersen, o filho do senhor de Metrópolis, Joh Fredersen e Apaixonam-se. Entretanto, Joh decide que os trabalhadores já não são necessários a Metrópolis e usa um robô para fingir que é Maria e fomentar a revolução entre a classe trabalhadora para eliminá-la.
Expressionismo Alemão: A idéia do expressionismo alemão no cinema que vem à mente traz rostos em preto-e-branco, lembra alguém gritando como se pintado por Edvard Munch. É o exagero da expressão facial, é o recurso teatral no limite, já que o cinema era mesmo mudo. A primeira vista, poderíamos dizer que as atuações dos atores são caricatas, rebuscadas em excesso. Mas os atores realmente são obrigados a atuar com maior ‘exagero’ a fim de superar a barreira da falta de diálogos É algo também relacionado com crítica social, numa época em que se permitia arte militante porque havia militância e utopia. Como se todos os “atores” (agentes) desta forma de expressão artística precisassem gritar. Sem dúvida, uma espécie de grito artístico. O movimento que veio da pintura caiu como uma luva na arte cinematográfica que se iniciava, e que tinha em seus criadores alguns pintores de formação. Os diretores não mediam esforços para mostrar ao espectador o estado de espírito de seus personagens. A iluminação, os cenários e as atuações eram usados, em grande parte, para ilustrar o aspecto ‘interior’ destes. Assim, o exagero na interpretação fazia parte do processo.
Critica: A obra foi baseada na novela escrita por Thea von Harbou, (na época casada com Lang. Eles se separaram quando ela se tornou nazista) que também escreveu o roteiro em parceria com Lang. Muito antes dos irmãos Wachowski nos criarem a trilogia pseudo-filosófica de The Matrix, um verdadeiro gênio do cinema – Fritz Lang (autor do também singular M – O Vampiro de Dusseldorf), já nos mostrava sua visão bem mais realista do que poderia vir a ser o futuro da humanidade. Assim como na saga futurista dos irmãos Wachowski, os operários são levados a acreditar que um dia virá alguém que os libertará de todo esse sofrimento e angústia. No caso, O Mediador. Mas aqui a espera deles tem algum fundamento, pois liderados por Maria (interpretada por Brigitte Helm, que também faz o papel do robô que toma o lugar dela), eles acreditam que “não pode haver entendimento entre a mão e o cérebro se o coração não agir como mediador”, sentença hoje célebre no mundo do cinema. Fritz Lang nos mostra que não é preciso encher um filme de efeitos especiais (embora o visual tenha sido revolucionário para a época) para se fazer um bom filme de ficção. Seu roteiro tem claras ideologias políticas e metáforas com a Alemanha da época de sua produção, como a cidade dos operários nos subterrâneos representando os discriminados guetos judeus. Politicamente existem duas teorias sobre o final do filme, uma mostrando a derrota do totalitarismo com o dirigente principal da metrópole aceitando a participação do proletariado no poder também, e outra onde esse ato de conciliação das classes sociais significaria a vitória da elite dominante conseguindo a aproximação do povo e sua conseqüente submissão ideológica. A mitologia também está presente na obra, com a bela cidade da superfície e os subterrâneos representando o paraíso e o inferno respectivamente, e com o jovem Freder descendo ao inferno e presenciando os tormentos de um mundo artificial sem liberdade, para tornar-se um “salvador” da paz entre as classes sociais, conforme profetizado pela líder dos operários e sua amada Maria. Visionar Metrópolis significa depararmos-nos com fantasmas do futuro, sejam eles sociais ou cinematográficos: o cientista louco (Dr. Rotwang) é evocado por Kubrick em Dr. Strangelove (interpretado por Peter Sellers); o elemento temático ilustra o fosso entre a classe operária e as hierarquias superiores podem ser encontradas em múltiplos filmes, desde Modern Times de Charles Chaplin a The Hudsucker Proxy, dos irmãos Coen. Seja em The Matrix, Blade Runner, Star Wars ou Akira, encontramos impressões espalhadas por múltiplos objetos cinematográficos. Até os truques para ampliar os edifícios e encolher os cidadãos, foram utilizados por Peter Jackson para encolher os hobbits em The Lord of the Rings. Apesar da sua inquestionável influência, Lang também buscou inspiração em obras predecessoras. Em 1924, Yakov Protazanov realizou Aelita, cujos cenários subterrâneos, bem como os seus pilares e rampas trapezoidais serviram de inspiração na criação de Metrópolis. Além disso, o futuro decomposto por Lang encontra-se em débito para com H. G. Wells e o seu romance de 1895, The Time Machine (a mais influente obra de ficção científica). Wells apresenta um futuro no qual os descendentes de capitalistas abastados vivem requintadamente à superfície, enquanto os trabalhadores operam no subterrâneo com maquinaria. Metrópolis aparenta uma dicotomia idêntica, mas enquanto a aproximação de Wells é essencialmente Marxista e inflamada por revolta, Lang adota uma inspiração religiosa para a reconciliação entre classes. The Four Horsemen of the Apocalypse (1921) de Rex Ingram, também serviu de fonte inspirativa. No seu filme, Ingram interrompe a narrativa moderna, para dramatizar uma simbólica passagem bíblica. De forma análoga, Lang dramatiza a passagem bíblica da Torre de Babel através da sua personagem Maria.
Minha opinião: Para se ter uma idéia da importância de Fritz Lang e de Metrópolis para a o cinema, basta verificar as influências em obras posteriores. Prestem atenção nas máquinas de Modern Times de Charles Chaplin, nas chaminés apitando em desenhos animados, nas turbas marchando no vídeo-clip de Pink Floyd (The Wall). Ridley Scott, Ingmar Bergman, Stanley Kubrick, George Lucas, Steven Spielberg, e outros tantos realizadores encontram-se em dívida para Fritz Lang. Nos gêneros a influência que se estendeu ao Neo-Realismo, ao Cinema Novo e aos filmes noir. A ambigüidade da sua visão originou muitas interpretações, desde um alerta contra o despotismo fascista até a tirania capitalista, contudo Metrópolis deverá ser encarado como uma obra que reforça o papel do cinema, enquanto meio de massa, inserido no fluxo de uma determinada era cultural, em manifestar e dar corpo, através das imagens, a aspectos sociais, filosóficos e relacionais da situação do homem perante seu tempo, perante o outro e perante a técnica. E hoje 81 anos depois do lançamento, Metrópolis ainda mostra uma montagem cheia de energia e planos plasticamente belos.
Curiosidades:
- O filme original, feito em 1927 (mudo), tinha mais de cinco horas de duração. A 1ª versão americana tinha 159 minutos e a alemã 153 minutos. Há uma versão restaurada pelo Filmmuseum Munich, que editou cenas perdidas e tem 150 minutos. Uma versão inglesa, chamada erradamente de “A Versão do Diretor”, tem 139 minutos. Há uma versão dos anos 80, restaurada na Alemanha, com 115 minutos, mas a versão em vídeo tem apenas 93 minutos. Em 1996 foi feita uma versão americana com música, que tem 115 minutos. Existe uma outra versão, só com 94 minutos, que tem uma trilha sem música e apenas efeitos eletrônicos gerando som. Em 2001 uma versão restaurada foi apresentada no Festival de Berlim, mostrando cenas que eram consideradas perdidas, e dura 147 minutos. Existem ainda as versões com 119 minutos (DVD) e 87 minutos (1984), que foi colorizada e musicada por Giorgio Moroder.
- A versão restaurada de 1984 recebeu duas indicações ao Framboesa de Ouro, nas categorias de Pior Trilha Sonora e Pior Canção Original (“Love Kills”).
- Imitado por várias gerações posteriores, Lang tinha uma particularidade que anos após veio a ser copiada pelo maior mestre do suspense. Após ter de ensinar a um ator como deveria fazer com a mão em um close, o diretor acabou gostando do take e utilizando-o no filme original. A partir daí, ele optou por colocar em todos os seus filmes um close de sua própria mão. Alfred Hitchcock o imitou aparecendo em todas as suas películas. E hoje em dia M. Night Shyamalan faz a mesma coisa.
- A produção durou quase um ano e meio, envolveu cerca de trinta e sete mil extras e foi o maior orçamento na Alemanha até então, porém não foi um sucesso de bilheteria como se esperava e o prejuízo financeiro para sua produtora Universum Film foi significativa.
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Isso prova como é dificil ter idéias originais. E eu achando que Matrix fosse revolucionário.
Essa idéias de classes extremamente distintas é o foco principal também de O Admirável Mundo Novo, de Huxley, com a diferênça que lá as pessoas se sentiam honradas por servir a classe inferior, enquanto o enredo desse Metrópolis me parece ter um elemento mais revolucionário. Bem que eu gostaria de ver esse filme qualquer dia.