O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet)
O Sétimo Selo, Suécia, 1956, 100 min. Direção: Ingmar Bergman Elenco: Max Von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson, Inga Gill, Maud Hansson, Inga Landgré, Gunnel Lindblom, Bertil Anderberg, Anders Ek, Gunnar Olsson, Erik Strandmark, Åke Fridell.
“A arte perdeu seu imposto criador básico no momento em que se separou do culto. Ela cortou um cordão umbilical e leva agora uma vida estéril, gerando-se e degenerando-se.” Ingmar Bergman
Sinopse: Antonius Block (Max von Sydow) é um cavaleiro que regressa a casa após dez anos de combate nas cruzadas. Desencantado com anos de batalhas sangrentas em nome de Deus, e mais ainda quando encontra o seu país degradante, mergulhado na peste e na miséria, Antonius começa a questionar a sua existência, bem como a existência (ou, ainda mais, as intenções) de Deus. Aa própria morte (que surge aqui com a sua clássica aparência popular, de foice e capa), que em sucessivos encontros com Antonius, é desafiada para consecutivos jogos de xadrez, com a combinação de que, caso o cavaleiro vença, ser-lhe-à concedido mais algum tempo entre os vivos, na procura das suas respostas e, caso perca, deverá acompanhar a morte ao seu destino.
Contexto Histórico: O século XIV, que é a época diegética de O Sétimo Selo, assinala o apogeu da crise do sistema feudal, representada pelo trinômio “guerra, peste e fome”, que juntamente com a morte, compõem simbolicamente os “quatro cavaleiros do apocalipse” no final da Idade Média. Inicialmente, a decadência do feudalismo resulta de problemas estruturais, quando no século XI, a elevada densidade demográfica na Europa, determinou a necessidade de crescimento na produção de alimentos, levando os senhores feudais aumentarem a exploração sobre os servos, que iniciaram uma série de revoltas e fugas, agravando a crise já existente. As cruzadas entre os séculos XI e XIII representaram outro revés para o sistema feudal, já que os seus objetivos mais imediatos não foram alcançados: Jerusalém não foi reconquistada pelos cristãos, o cristianismo não foi reunificado, e a crise feudal não foi sequer minimizada, já que a reabertura do mar Mediterrâneo promoveu o Renascimento Comercial e Urbano, que já contextualizam o “pré-capitalismo”, na passagem da Idade Média para a Moderna. O trinômio “guerra, peste e fome”, que marcou o século XIV, afetou tanto o feudalismo decadente, como o capitalismo nascente. A guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre França e Inglaterra devastou grande parte da Europa ocidental, enquanto que a “peste negra” eliminou cerca de 1/3 da população européia. A destruição dos campos, assolando plantações e rebanhos, trouxe a fome e a morte. Nesse contexto de transição do feudalismo para o capitalismo, além do desenvolvimento do comércio monetário, notamos transformações sociais, com a projeção da burguesia, políticas com a formação das monarquias nacionais, culturais com o antropocentrismo e racionalismo renascentistas, e até religiosas com a Reforma Protestante e a Contra Reforma. O filme toca imaginativamente nesse mundo antigo, saturado de feiticeiras, cavalos, fome, peste e fé, depositando confiança em nossa imaginação.
Critica: Foi o décimo filme que Bergman dirigiu e é uma de suas poucas tramas não-realistas. Foi baseado na peça “Trämålning” do próprio Bergman. O filme é rico em figuras e símbolos, muitas vezes irônicos, outras vezes sutis. Podemos encontrar muitas influências culturais tanto no filme como no próprio roteiro: o quadro dos dois acrobatas de Picasso; Carmina Burana de Carl Orff; A Saga dos Folkung e O Caminho de Damasco de Strindberg; os afrescos religiosos que Bergman viu na Igreja de Haskeborga. O Filme, assim como toda a obra do diretor no seu início, é considerado neo-expressionista. Os cenários são muito rústicos e simples, a maquiagem é impressionante, e muitas vezes os atores aparecem machucados, ou com dentes podres, desprovidos de qualquer regra de higiene atuais, o que dá mais realismo ao filme. Intelectualmente a trama do filme é entrecida com dois: o da busca, pelo Cavaleiro já desesperado, de alguma prova, alguma confirmação de sua fé, e o da atitude do Escudeiro, para quem não existi nada, para além do corpo em carne e osso, senão o vazio. O filme articulou perguntas que não se atrevia fazer: quais eram os sinais verdadeiros de que existia um Deus? Onde estava o testemunho coerente de qualquer benevolência divina? Qual era o propósito da oração? A dúvida do Cavaleiro, sua determinação de se apegar aos exercícios exteriores da crença quando o credo inteiro estava esmigalhado coincidia com a situação de muitos. Mostrou com uma visão simples e totalmente moderna para a época, o relacionamento de Deus com o Homem. No final a inexorabilidade do destino e do tempo se revela inquebrantável e imutável. Em uma seqüência antológica, todos se vêem diante de seus destinos e o encaram com suas próprias palavras e gestos. É quando presumimos que todas as repostas que Block buscava estavam justamente na figura da qual tentava se desvencilhar o máximo possível. Mas é a própria Morte quem diz diante do relutante Antonius na sua hora final: “eu não sei nada“. Sem responder com clareza se o que vem depois é mesmo o vazio, como crê Jöns, Bergman nos dá, ao final de seu filme, a deixa de que talvez o mais importante não seja onde está a morte, mas sim onde está a vida.
Minha opinião: Difícil não se curvar à mestria do diretor sueco Ingmar Bergman, um dos principais nomes da história do cinema mundial. Mesmo para aqueles que consideram a temática bergmaniana pessimista e ultrapassada. Bergman em O Sétimo Selo nos da uma pequena aula de cinema. Até então os filmes buscavam o entretenimento, e quem quisesse a verdadeira substância do pensamento teria que abrir um livro. Bergman botou isso de pernas para o ar nesse filme, mostrando um cinema não somente para a diversão, mas também para a reflexão. Outra marca de seu gênero é a intensidade. Esta pode ser insuportavelmente desoladora, embora redimida pelo estoicismo em Luz de inverno; pelo erotismo em Mônica e o desejo; pelo feminismo e a ternura em Gritos e sussurros; ou pela religião, em O sétimo Selo. Ingmar Bergman faz do cinema uma linguagem que fala diretamente “da alma para a alma”, como o mesmo faz questão de frisar. Apesar de não ser um cineasta infalível, a maioria das obras assinadas por ele beira o sublime por conta de sua sensibilidade e precisão. Em O Cinema Segundo Bergman, livro que reúne uma série de entrevistas suas, o diretor explica: “O único gesto que realmente vale a pena é o que estabelece contato, o que comunica, o que sacode a passividade e a indiferença das pessoas”. Sem dúvida, é um autor indispensável.
Curiosidade: Melvyn Bragg, escreveu um livro que leva o nome do filme, editado aqui no Brasil pela Rocco, no qual desenvolve as questões conceituais em torno do filme.
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